Quando tomamos consciência de certas coisas na vida, muitas atitudes e pensamentos se tornam mais claros, o que nos permite enxergar de forma diferente os episódios cotidianos. Um desses insights são os clichês, que só fazem sentido na nossa cabeça quando realmente entendemos eles. O destaque de hoje é para: sabe aquele comportamento do outro que te incomoda e no fundo é um problema mal resolvido teu?
Para explicar, vou fazer uma análise de caso envolvendo uma amiga (chamada C.), um aplicativo de relacionamento (chamado T.) e um namoro a distância.
A minha amiga conheceu um carinha que vou chamar de L. pelo aplicativo T. Ela é uma guria de espírito livre, que está tentando se encontrar e, já cansada desta capital, se mudou para outra capital porém praiera. Assim conseguiria tomar o fôlego que é exigido antes de decidirmos o rumo de nossas vidas, pois cada um tem o seu tempo e a sua maneira para fazer isso. Até aí tudo bem, o dilema começa quando a C. conhece o L. pelo app T.; L. mora na sua antiga cidade, mas o match ocorre na atual cidade de C. Alguns dias de trova os fazem perceber que se gostam, possuem coisas em comum e marcam de se encontrar na antiga cidade de C. E essa visita intensifica as coisas, fazendo-os perceber que estão apaixonados. L. propõe namoro à distância, C. conversa com os amigos pois gosta do guri, mas não sabe se deve abdicar de conhecer outras pessoas em prol dessa paixão repentina. C. acaba aceitando após chantagens de L. Se passam poucas semanas e C. me conta que terminaram, que L. surtou e não quis mais saber de relacionamentos a distância, deixando C. num primeiro momento chatiadíssima, sem entender e, pelo que me pareceu, com os sentimentos confusos.
Vou levantar alguns pontos importantes antes de justificar em qual parte dessa história toda o tal clichê se encaixa.
1) Porque duas pessoas que moram algumas horas de distancia se conhecem e decidem namorar? Com o que vi e vive claramente nota-se a necessidade das pessoas em acreditar no amor a primeira vista, no conto de fadas clássico.
Caramba, isso NÃO existe!
Paixão à primeira vista existe, que é um sentimento bem diferente. Paixão acaba, amor se constrói a cada dia.
2) Porque a pessoa diz que quer namorar à distância e depois, como veio, foi-se a vontade de continuar? Ora, do mesmo modo que tem gente esperando que o outro abdique toda sua vida e decisões em prol do "amor".
Caramba, isso NÃO existe!
L. esperou que C. fosse voltar pra sua antiga cidade por ele, percebeu que precisava de alguém fisicamente ao seu lado, não conseguiu levar essa situação como esperava e terminou com C.
Ando lendo sobre amores líquidos, sobre relacionamentos descartáveis, olha aí um nítido exemplo.
3) Porque C. uma jovem adulta, livre de enraizamento, que resolveu dar um tempo da família, amigos e compromissos cotidianos aceitou se comprometer com um guri que mal conhecia?
Tenho várias impressões sobre o que levou minha amiga C. a tomar essa decisão. Ela pode ter se sentido sozinha na nova cidade; ela pode ter tido a necessidade de compromisso; ela pode ter ficado carente não de sexo (pois é uma das pessoas que mais levanta a bandeira de sexo casual que conheço) mas de atenção, alguém que a escutasse e desse um feedback e compartilhasse aflições e emoções. Seja qual tenha sido o motivo da sua decisão ela acreditou que poderia funcionar. Fazer voto de fidelidade mesmo sem a presença física, existe tantos relacionamentos à distância, não é mesmo?!
Caramba, isso NÃO existe!
Tudo começou errado, desde a futilidade de um aplicativo que faz as pessoas se relacionarem por uma imagem, atrás de uma tela, até a existência de um compromisso firmado sem ao menos se conhecerem direito e em cima de promessas.
Então eu volto para o clichê. Toda essa história me deixou inquieta, incomodada, porque apesar dela não se tratar de mim eu já passei por isso, eu já fui tanto a C. quanto o L.
Hoje consigo pensar mais em como essas histórias de relacionamentos líquidos me perturbam do que julgar a escolha de quem as protagonizou.
Servem como mais um crescimento pessoal, já que eu não conseguia enxergar quando era eu quem estava sendo protagonista delas.
Obs.: No outro texto eu havia dito que nesse próximo iria falar sobre o ser, quem é, é! Mas não teve inspiração e essa frustração me ensinou duas coisas: não adianta forçar o que não existe no memento e não adianta criar títulos antes de de escrever o texto, pois ele pode tomar um rumo totalmente diferente.
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